segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Capítulo Três - Maria

Havia gente gritando e falando ao meu redor enquanto eu apalpava minha cabeça, sentada no meio-fio. Não conseguia discernir nada, os barulhos pareciam um tanto distantes. Coisas geladas foram colocadas ao redor do meu rosto, enquanto uma voz clara e delicada como música dizia:
- Você está bem, Cecília? Pode me ouvir? Abra os olhos.
Só então percebi que estava com os olhos fechados. Com esforço, deixei o dia ensolarado inundar minha visão, e a primeira coisa que encontrei foram os grandes olhos caramelo da minha protegida, que pelo visto, estava bem melhor do que eu.
- Eu estou bem....
Outra voz, ainda mais bonita que a de Maria chegou aos meus ouvidos, mas era mais grossa e profunda. Um homem.
- Ela parece bem, Maria. Mas se você acha melhor levá-la hospital, podemos fazer isso. Só vamos tirá-la daqui, essa gente não está ajudando. – havia um tom de claro aborrecimento.
- Você pode andar, Cecília?
- Eu acho que sim... eu... – mas antes que eu terminasse, duas mãos me apanharam, uma de cada lado, colocando meu corpo de pé e sustentando. Eu tremia por inteiro, minhas pernas mais que tudo, mas eu queria sair dali. As mãos firmes, mas gentis me conduziram. De um lado, eu sabia que era Maria, seu perfume era inconfundível. Do outro lado, eu não sabia quem era. Eu estava sendo conduzida para um carro azul, não consegui reparar o tipo. Dentro, meu corpo dolorido recebeu feliz o assento de couro do banco traseiro. Alguém ligou o ar condicionado, enquanto a voz masculina dizia:
- Vou comprar uma água.
Eu estava com meus olhos fechados novamente, mas a voz já estava de volta, ralhando:
- Pelo amor de Deus, Maria, não deixa ela dormir. Bateu muito forte com a cabeça!
- Mas ela parece tão cansada!
Ouvi algo como um grunhido em resposta. Alguém colocou uma garrafa nos meus lábios, e eu bebi a água, sôfrega. Depois disso eu fui me sentindo melhor e pude realmente ver que eu estava num veículo espaçoso, com Maria ao meu lado, e do outro, alguém que eu nunca tinha visto antes. E esse alguém era lindo. Mesmo sentado eu podia ver como ele era alto. Seus cabelos lisos, os olhos negros e amendoados, as maçãs do rosto altas e a cor meio dourada da sua pele informavam que tinha sangue índio correndo em suas veias. E ele era forte, com músculos na medida certa, eu podia ver pelos seus braços saindo pelas mangas de sua camisa branca. Ele era jovem, não parecia ter mais de vinte anos.
Eu olhei, bem abobada, para o modelo exótico ao meu lado. Ele sorriu para mim, seus dentes eram brancos, fortes, brilhantes. Os lábios pareciam suaves, sensuais. Eu corei, não era do meu costume me sentir assim por causa de ninguém. Maria falou:
- Ah, Cecília, esse é o meu irmão, Gabriel.
Irmão. Era estranho, eles não se pareciam em nada, algum dos dois deveria ser adotado. Percebendo meu olhar de dúvida, ela falou:
- Não somos irmãos biológicos.
Eu não sabia o que falar, bebi mais um gole da minha água, enquanto Maria falava:
- Eu não sei o que você estava pensando, podia ter se machucado...
Então eu me irritei um pouco:
- Olha quem fala! Você estava no meio da rua parada, o carro ia te despedaçar...
O tal Gabriel disse:
- É verdade, Maria. Não seja ingrata, ela arriscou a vida para te salvar.
Então ela me olhou primeiro com olhos severos, que foram ficando doces. Então fez algo que realmente me surpreendeu. Maria me abraçou apertado, como se fossemos velhas amigas, e quando falou, sua voz era carinhosa:
- Tolinha. Sou muito grata a você, o que você fez por mim uma irmã não teria feito. Você é uma pessoa fantástica, Cecília.
Eles me levaram ao hospital, apesar dos meus protestos. Fiz alguns exames, mas o médico me liberou, após recomendar cuidado ao atravessar a rua. Eu sorri amargamente para ele, e fiquei olhando para Maria de um jeito acusador. No final das contas, parecia que ela não era aquela menina arrogante que eu achara que fosse. Essa de agora me encarava com uma expressão envergonhada, e eu estava longe de sentir o aborrecimento que fingia.
Gabriel dirigiu o carro até minha casa, fomos em quase completo silêncio. Quando chegamos, Cecília me deu seu telefone, caso eu necessitasse de algo. E, para a minha surpresa, deu um abraço de despedida.
- Bom final de semana, Cecília. Nos vemos na segunda! Se precisar de alguma coisa, me liga...
- Claro, claro... Até mais. – o irmão dela só me deu um leve aceno de cabeça. Entrei em casa e fui diretamente para o meu quarto. Tirei o celular da minha bolsa de palha e arfei, chocada: 10 ligações perdidas da Carolina. Eu havia em esquecido de que eles ainda deviam estar esperando minha volta, com os refrigerantes. Liguei imediatamente para minha amiga, impressionada com o tamanho do meu esquecimento. Depois que expliquei a situação, informando que estava bem, pedindo para que não se preocupasse, fui tomar um banho quente para me limpar e relaxar. Então deitei na cama e imediatamente peguei no sono.
Na segunda-feira já não me impressionou que Maria ficasse mais próxima de mim, e também ao grupo dos meus amigos. Eles aceitaram essa situação de forma muito legal, mesmo porque eles já falavam com ela antes, ainda que não fosse tanto. Eu confirmei minhas suspeitas de que ela não era esnobe. Nela eu encontrei um bom senso de humor, gentileza e confiança. Mas continuava não sabendo porque ela se comportara daquela forma. Também decidi que não importava, talvez tivesse sido timidez, talvez receio das outras pessoas. O fato é que deixando isso para lá, eu a aceitei inteiramente, e dois meses depois ela já era minha melhor amiga. Não foi só um título, era muito real como ela sempre estava ali ao meu lado quando sentia que eu afundava, como era a pessoa com quem eu mais me divertia, que sempre procurava coisas que me animassem.
Dois meses depois da mudança, estávamos na escola, reunidos na mesa da lanchonete e eu andava mais feliz e muito aliviada. É claro que havia uma chaga no meu peito pela morte dos meus pais, mas eu estava começando a entender que aquilo nunca mudaria. A dor da perda agora era parte de mim, eu sempre sentiria saudades. Se eu tinha lembranças boas, aquilo deveria me ajudar a seguir em frente, não deveria seguir fazendo delas um mundo em que eu me afogava. O acidente me acordara para aquilo. Porque se meus pais morreram, era verdade que eles me desejavam o melhor. E de onde estivessem, eu acreditava que estavam olhando por mim.
Eu comecei a me alimentar melhor, de uma forma saudável. Eu estava mordendo minha maçã quando Maria chegou para se sentar à nossa mesa e informou:
- Pessoas, meus pais vão dar uma festa lá em casa, e eu estou convidando todos vocês... - Analú, de cabelos loiros curtos Chanel, deu um daqueles seus sorrisos angelicais:
- Hum... Faz tempo que eu não vou a uma festa!
- Quando vai ser?
- No sábado, daqui 2 semanas. Vai ter muita gente mais velha porque é uma oportunidade para os negócios, também. Mas tem os filhos dessas pessoas, e meus irmãos e eu vamos convidar alguns amigos.
Roberto tinha uma expressão maliciosa em seu rosto cor de ébano:
- Mulheres bonitas?
Maria retorceu os lábios, dizendo;
- Claro, mas nenhuma mais bonita do que nós.
Gargalhadas e barulhos irônicos partiram dos garotos.
- Em falar em beleza – murmurou a nissei Letícia – olha quem está vindo aí.
Passando em frente à mesa, o muito alto, forte e loiro Flávio. Todos sabiam que ele jogava futebol no sub-17, e estava na mira de alguns clubes na categoria profissional. Era difícil jogadores de futebol com esse tipo de beleza, e inteligente como se dizia que era. Se não fosse um esportista, suas notas o colocariam no time dos nerds. Eu baixei meus olhos, tendo a impressão que ele me olhara por um breve momento.
- Então com certeza a Letícia vai à minha festa... Porque o Flávio ali vai.
As meninas meio que ficaram hiper animadas depois disso, rindo nos momentos mais estranhos desse mundo. Eu não. Um cara gato como Flávio pode te deixar ansiosa só por estar no mesmo ambiente que ele, e você o olha e fantasia: se ele me notasse... Mas uma beleza tão exótica, mácula e misteriosa como a do irmão de Maria faz você passar mal de estar perto, e o cheiro... nossa, como ele cheirava absurdamente bem... Mas eu não podia nem me deixar ficar boba e mole como eu queria, porque o Gabriel era mais velho, irmão da minha melhor amiga e muito inalcançável. Um deus guerreiro antigo indígena diante de uma mulher comum.
Nossa próxima aula era Educação Física, Letícia tinha um sorriso enorme, não somente porque adorava se exercitar, mas também porque achava o jovem professor um pedaço de mau caminho. Sim, ele era, mas eu não gostava do que ele estava propondo esse semestre como atividade. Quer dizer, eu amo dançar, mas correr não é meu forte, ainda mais nesse calor. Exceto Carolina, nenhum dos meus amigos compartilhava o meu sentimento de desânimo. O pior mesmo era Maria, que costumava correr ao meu lado de uma maneira que não demonstrava cansaço, ela nem suava, enquanto eu terminava o circuito suando em bicas, vermelha e descabelada. Ou seja, ela estava linda e impecável, como sempre.
O sol ardia em minha cabeça, eu havia esquecido meu boné, minha pele dizia que ia rachar, mas minha nota do bimestre dependia de treino, e naquele ritmo, eu não conseguiria terminar. Pessoas do mesmo ano, mas de outra sala, também utilizavam a pista. Minha amiga nissei quase teve uma explosão ridícula de risos porque Flávio estava ali. Ele fazia seu percurso sem esforço, sem perder nada de seu charme porque estava suando. Prendi meu cabelo em um alto rabo de cabelo e comecei a correr, as meninas ao meu lado. Os meninos já estavam à frente, o número de voltas que eles tinham de dar eram maiores, no mesmo espaço de tempo que nós. Fazia dois minutos que eu tinha iniciado quando Flávio passou por mim, que a essa altura estava para trás com a Maria. Quando ele passou, virou a cabeça, e eu tive a nítida impressão de que foi para mim que ele olhou, não para minha companheira. Será? Não, improvável.... Mas foi só depois que ele diminuiu o ritmo e esperando que nós o alcançássemos, colocou-se ao lado da Maria:
- E aí, aquela festa vai rolar mesmo? – até correndo dava para perceber que ele tinha um jeito calmo de falar, meio pausado, educado.... Ele era realmente legal, diferente dos outros que falavam gritando, cheios de trejeitos para chamar atenção. Maria, também com facilidade para falar, disse:
- Claro, convidei você e outros amigos meus daqui.... Ela vai também – disse, apontando para mim – Vocês se conhecem? – ele fez que não
- Então, essa é a Cecília, esse é o Flávio.
Ele sorriu, dessa vez muito para mim:
- Gostei do seu nome, até mais Cecília, Maria...
E aumentando a velocidade, ele se foi. Eu estava com tanta vergonha, fixei o olhar à frente e foi meu erro. Ao longe, ele continuava irresistível, e eu podia ver os músculos da suas pernas bronzeadas.... Foi meu erro. Atrapalhada e cansada, não notei que meus cardasos se desamarravam, e eu pisei neles, caindo com a cara no chão, como uma fruta podre. Só tive tempo para colocar minhas mãos na frente para não bater meu rosto. Imediatamente senti dor nas minhas mãos e nos meus joelhos, eu percebi que meus joelhos sangravam um pouco.
-Ai meu Deus! – a voz límpida da Maria tinha subido vários tons com o desespero. Ela nem olhava para o meu machucado direito, a essa altura eu já estava sentada. Pensei vagamente que ela podia ter me oferecido sua mão para me ajudar a levantar. Mas outra mão me era oferecida, bem maior, quente e macia: Flávio tinha voltado e me ajudava agora:
- Você está bem? Acho melhor irmos até a enfermaria...
- Não precisa, não foi nada....
Maria me cortou, histerismo brilhando nos olhos caramelos:
-Pelo amor de Deus, Cecília, você está sangrando!
Ela realmente estava gritando agora, eu arregalei os olhos, surpresa. Imagina o escândalo que ela estaria fazendo se fosse ela que tivesse se machucado. Sem esperar respostas minhas, mas também um pouco chocado com os gritos, Flavio me acompanhou para avisar o professor e então até a enfermaria. O desgraçado do Prof. Márcio olhara para mim do alto dos seus músculos e óculos escuros e dando um sorriso de comercial de pasta de dente, e dissera:
- Vai logo, Cecília.... Quando vi a aglomeração na pista, devia ter adivinhado que era você...
Com raiva fervendo dentro de mim, fui para a enfermaria, meu fiel escudeiro ao meu lado. Nenhum cuidado foi necessário além de gelo e curativo. Enquanto eu pressionava um saquinho contra meu joelho, eu insistia com o Flávio para ele ir embora, se não perderia sua próxima aula:
- Relaxa, minha próxima é Química. Eu detesto, prefiro tomar banho nela... Ah, já sei, você quer me mandar embora porque eu estou suado, fedendo.... – Eu ri com aquele absurdo, as meninas da escola se matariam para estar no meu lugar, mesmo que ele estivesse coberto de lama, não fosse a beleza, ele tinha tanto status.
Quando nos despedimos, ele me disse até mais e me deu um beijinho no rosto. Isso era algo tão comum, qualquer pessoas que conhecíamos, nós cumprimentávamos assim, não era necessário nenhuma intimidade. Havia verdadeiros rituais de beijos no rosto à hora da entrada, como no Império se fazia rituais de beija-mão. Mesmo assim, aquele era especial, porque o cara era fantástico e perto dele eu reparara que tinha olhos de uma cor que eu não podia definir se eram verdes ou de um pálido azul, mas eram doces, disso eu tinha certeza. O beijo no rosto tinha sido quente, eu estava balançada, e isso não seria nada bom, a criação de ilusões na minha cabeça atrapalhada.
Quando cheguei um pouco atrasada na minha aula de Redação, estava aborrecida com a Maria. Não que eu reclamasse da atenção do meu amigo, porém ela podia ter sido mais legal. Além disso, eu não tomara banho, estava com o shorts da Educação Física, curativos no meu joelho. Quando eu sentei em uma das mesas redondas, ela colocou uma mão em meu braço, sussurrando:
- Me desculpe por não ter ido com você.... Eu tenho problemas quando vejo sangue, fico histérica...
Tudo bem, ela tinha problemas. O que eu poderia falar sobre isso, eu tinha esquisitices piores, depressão, silêncio, mau-humor... E ela nunca me abandonara e condenara. Eu sorri, ela estava totalmente perdoada:
- Tudo bem, eu não estava sozinha.
Ela soltou um riso gostoso, o rosto cúmplice:
- Estava na melhor companhia... Ele estava louco para ficar um tempinho com você.
-Até parece...
- Estou falando sério, Ciça! Todos sinais estão lá, você só não vê se não quiser! – e começou a enumerar nos dedos:
-Ele te olhou na lanchonete hoje, e não foi a primeira vez.... Ele te notou já semanas atrás. Depois veio com aquela história da festa só para eu te apresentar.... E como se ofereceu para te ajudar.... Ai, meu Deus, as meninas estão morrendo de inveja! – Eu ri, meio nervosa.... Será? Será? Será?
Naquele momento, o professor chamou a atenção da classe para que parássemos de falar tanto e voltássemos a escrever os textos.

Capítulo Dois

Outro Acidente

Nem nos meus sonhos eu poderia ter imaginado aquela nova faceta da Rita. É claro que eu sabia que ela era muito competente, ocupava um cargo importante na empresa em que trabalhava e como minha mãe, contava com uma herança boa no seu patrimônio. E ela também informara que ia ganhar bem mais no novo cargo. Mas eu não reparara como ela gostava do luxo. No meu estado de quase letargia nos últimos meses nem reparara na quantidade de pequenas, mas caras, jóias que ela possuía. Nem nas lojas caríssimas que ela comprava. Ela gostava de luxo, não tanto de ostentação.
Sua nova casa, minha nova casa, era parecida com ela. Ficava em um condomínio fechado em Vitória, era grande demais para as duas pessoas que morariam lá. Tinha vizinhas mais imponentes, tudo bem, mas eu não via a mínima necessidade das três suítes, da piscina e do grande jardim. Quer dizer, eu não ia nadar, e que eu saiba, muito menos a workaholic com quem morava. Além do mais, aquilo era tão diferente do nosso antigo, espaçoso, porém sóbrio apartamento que eu podia me sentir em Marte.
Mas a Rita estava mais que satisfeita, era óbvio. Aquilo me irritava muito, de modo que eu passava minhas últimas tardes de férias passeando ao redor do bairro,já que as aulas de dança só começariam depois. As praias eram muito perto, mas realmente não suportava o sol e a alegria dos turistas. Logo encontrei lugares preferidos: uma praça e um café. Na praça eu via as famílias com seus filhos nos fins de semana. Para o café, levava um livro para estudar enquanto me acabava em cafeína.
Quando chegou a manhã que eu retornaria às aulas, estava no meu humor apático de sempre. Lavei meus cabelos por uma questão de higiene e enquanto os escovava em frente ao espelho, reparei em mim pela primeira vez em meses. As mudanças eram óbvias: havia emagrecido, estava pálida, o olhar mortiço. Fiquei um pouco preocupada em passar mal e nem poder começar as aulas de dança. Decidi que dali em diante eu colocaria comida goela abaixo, ainda que não tivesse a mínima vontade ultimamente.
Minha turma não me surpreendeu. Pessoas de dezessete anos felizes, risonhas, amontoavam-se em grupinhos. As meninas patricinhas, os garotos esportistas, os descolados, os alternativos, os nerds, alguns excluídos. Pessoas que já se conheciam e estavam eufóricos porque se formariam esse ano. Que viagem eles escolheriam? Imaginava que não seria Porto Seguro, já que tinham praia ali ao lado. Ou talvez fosse, era diferente praia quando se podia beber até cair, não? Sem precisar encarar os pais na ressaca.
Escolhi um lugar ao fundo para sentar. Quando a manhã acabasse, procuraria a professora de dança dali, como a diretora havia me indicado.Parecia que esse ano eles ensaiariam um espetáculo. Quem sabe eu poderia me encaixar? Dançar era a única coisa que eu fazia bem.
A primeira aula era de Literatura, uma matéria que eu apreciava, mas o professor tardava a chegar. Não tendo o que fazer, fiquei observando as pessoas. Alguns ao meu lado pareceram começar a me notar, mas não os encarei. Definitivamente não queria falar com ninguém por enquanto. Primeiro, eu iria examinar o terreno. Ao lado esquerdo sentava um grupo numeroso de meninas bonitas: loiras, morenas, uma negra. A maioria com o cabelo liso de escova e chapinha. Eram as que mais riam na sala barulhenta, notei que usavam maquiagem também. Eu não podia me sentir mais diferente do que ali, no pior sentido da palavra. Havia apenas um casal na sala, eles estavam alheios a todos, de mãos dadas sobre a mesa, cochichavam baixinho. Eu me remexi, inquieta, aquilo era desconfortável.
O professor entrou de repente e a turma calou em poucos instantes. Eu me surpreendi, esse comportamento não era muito normal. O homem era velho, tinha barba e cabelo brancos, no entanto, passava a impressão de ser vigoroso. Ele sentou-se, dizendo bom dia, e sem perguntar como foram nossas férias ou desejar boas vindas, foi informando o conteúdo que estudaríamos naquele ano. Ninguém parecia surpreso ou aborrecido com isso, o que me fez pensar que provavelmente os alunos já estavam acostumados com ele.
- Quanto aos livros do vestibular, focaremos especialmente em Sagarana e Vidas Secas. É claro que não faz o menor sentido.... Sim, senhorita?
Eu estivera tomando notas, quando levantei a cabeça, vi que ele se dirigia a uma garota parada no meio da sala. Ela obviamente tentara entrar atrasada e de forma discreta, mas isso tinha sido um desastre. Com um meio-sorriso sem graça, ela pediu desculpas, e eu fiquei surpresa com a voz delicada e limpa que eu ouvi. Quase como se ela estivesse cantando ou recitando.
- Vá sentar então, Maria. – eu estranhei o nome meio em desuso.
Rapidamente, ela sentou-se na cadeira vazia ao meu lado. Pude notar, pelos cantos dos olhos, que ela não usava maquiagem alguma. Também, nem precisava. Ela era gritantemente bonita, os olhares dos garotos a seguiram quando ela passou. E, veja bem, eu não estou me referindo a uma beleza vulgar. Seu cabelo era longo, levemente ondulando até sua cintura. Como seus grandes olhos, era cor de caramelo. Mas Maria era extremamente branca, pálida, não de forma doentia, era um pálido meio luminoso, quase como a princesa élfica do filme O Senhor dos Anéis, mas sem as orelhas pontudas.
Provavelmente notando que eu a olhava muito, ela virou a cabeça para mim. Eu rapidamente voltei para as minhas anotações, sem a encarar nos olhos. Quando o sinal bateu, levantei e apanhei a mochila. Minha próxima aula era laboratório de Química, eu não poderia estar menos ansiosa.
Uma garota que estivera sentada atrás de mim deve ter reparado o meu desânimo, porque virou para mim, dizendo:
- A próxima aula é boa, a professora dá nota fácil e não liga muito se a gente conversa. Sorri involuntariamente para ela, meio surpreendida pelo tom usado, como se eu tivesse perguntado antes.
Foi por isso que respondi:
- Que bom, não ia suportar uma aula séria como essa em Química.
Ela riu.
- É verdade... Meu nome é Carolina.
- O meu é Cecília.
E ela foi minha primeira amiga naquele lugar. Carolina era realmente alguém legal. Não fazia o tipo popular, mas conversava bastante, ria fácil. Estava um pouco acima do peso, mas realmente não se importava. Tinha um rosto meigo, o cabelo escuro nos ombros era sedoso, e olhos azuis. Com ela como companhia, o dia não demorou tanto a passar. Ela também não me fez nenhuma pergunta muito pessoal, o que me poupou a parte desagradável da pena.
Quando a manhã acabou, fui me matricular e falar com a professora de dança, Juliana. Era jovem, e cheia de entusiasmo. Passou para mim os horários das aulas, e me explicou a idéia de dar aos alunos uma noção dos mais variados tipos de dança. Também disse que os estudantes matriculados poderiam treinar num espaço da escola, pois era permitido.
- Não que alguém faça isso. - ela disse rindo.
É claro, mas eu faria.

A primeira semana de aula não correu tão ruim como eu havia imaginado. Carolina me apresentou para o grupo de amigos que ela costumava andar, pessoas tranqüilas e inteligentes, dois meninos e duas meninas, além dela . De vez em quando, a tal Maria se reunia a eles, as únicas pessoas com quem parecia se dignar a falar. Os outros diziam que ela era meio reservada. Ela nunca falara comigo, mesmo quando estávamos nos mesmo grupo de pessoas.
No sábado, acabei aceitando o convite dos meus novos colegas para um passeio na praia. Não estava realmente a fim, mas preferi aquilo do que um dia inteiro sozinha, ou com a Rita, que dava no mesmo. Além do mais, eles eram pessoas legais, por isso também fiz um esforço extra para não me deixar cair no estado robótico-vegetativo.
Coloquei um biquíni por baixo de um vestido de verão, só para o caso de insistirem muito e eu ser obrigada a entrar no mar. Peguei óculos escuros, chapéu e bolsa de praia e fui de táxi. Minha mesada era bem grande, e eu quase não gastava. Além disso, não queria ter de tirar a Rita da frente do seu notebook só para satisfazer minhas necessidades sociais.
Eu os encontrei no lugar combinado. Ali estava Carolina, Letícia e Analu, Roberto e Luís. Tinham vindo todos. Andamos um pouco à beira mar, sentindo a água banhar nossos pés. Estava realmente muito calor, mas a brisa aliviava. Depois estendemos a esteira e sentamos. Os meninos logo acabaram entrando em um jogo de futebol, e nós, meninas, ficamos ali, conversando. Então vi Maria, distante uns trinta metros de nós. Ela usava uma saia curtinha e uma camiseta regata, estava falando com algumas pessoas que eu não conhecia. Então falei para as outras:
- Não é a Maria ali?
Estreitando os olhos, Carolina comentou:
- Ela mesma. Esquecemos de chamá-la... Mas parece que ela já está acompanhada.
No entanto, nesse momento ela foi embora, caminhando na direção contrária, e não nos viu.
Uma meia hora depois, eu estava me sentindo fritando por causa do sol, louca por um refrigerante. No entanto, econômica como era, pretendia ir até a pequena venda ali perto onde a bebida era mais barata. Eu não ia me sujeitar aos preços dos quiosques/barracas. Como boa alma, perguntei aos outros se queriam algo, colocaria tudo na minha sacola de praia. Todos se mostraram muito agradecidos, mas ninguém se ofereceu para me acompanhar. Não me importei, só queria algo gasoso e gelado para molhar a garganta.
Saindo da areia, estava na faixa de pedestres, atravessando a avenida quando vi Maria mais uma vez. Ela vinha na minha direção contrária, mas pareceu não me ver. Eu estava começando a achá-la muito mal educada. Do outro lado, me virei para trás a fim de olhá-la. Mas ela não estava na outra calçada. Estava parada no meio da rua, sem fazer movimento algum, perfeitamente rígida, os braços ao lado do corpo. Eu só podia ver suas costas, não imaginava o porque daquilo. Então o farol fechou para os pedestres, verde para os carros. Umas últimas pessoas correram. Maria não, continuou parada.
Não sei o que me deu. Quer dizer, sou alguém legal fora do meu estado robótico, mas não costumo bancar a super-heroína, ainda mais com gente que eu nem conheço direito. Não sou tão boa assim, e prezo pela minha conservação física, já que a mental não está sempre 100%. Acho que deve ter sido o fator carro. O cara bêbado do caminhão que fez o carro dos meus pais parecerem uma sanfona. Eu queria evitar uma morte, provavelmente aquela que não havia mais como não evitar.
Então simplesmente corri para tirar Maria do caminho quando vi um carro vindo em alta velocidade, o som tão alto, teria o motorista visto uma menininha na rua? Provavelmente não, porque ele vinha acelerando. Quando corri, me choquei contra Maria e consegui tirá-la do caminho. Mas nós duas caímos no meio fio do outro lado, e ela eu não tinha visto como estava, porque eu estava ocupada com a dor da minha cabeça batendo no chão.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Capítulo 1 - Mudanças

Meus pais e eu tomávamos café da manhã na sala do nosso apartamento naquele sábado. Era um hábito estarmos reunidos às refeições, mesmo aos fins de semana. Lembro que fazia frio, as janelas estavam fechadas para impedir o vento de entrar. Em algum momento, eu dissera:
- Vou cortar o cabelo na semana que vem.
Os lábios da minha mãe caíram numa carinha de tristeza. Meu pai estendeu o braço, apanhando uma mecha dos meus longos cabelos pretos e anelados:
- Não corte.
- Por quê? Os dela são curtos, e são como os meus – eu afirmei, apontando minha mãe. Ela então riu daquele jeito alto que costumava rir, replicando:
- Mas eu sou uma velha... Não fica bem cabelos longuíssimos na minha idade.
Eu fiz um som de sarcasmo. Tá legal. Deixa eu dizer o quão jovens meus pais pareciam e como eles eram bonitos. Minha mãe não era alta, tinha 1,65m, mas seu corpo era magro e cheio de curvas, ninguém diria que tinha uma filha, muito menos que passara dos trinta. Conservava a pele fresca, delicada, sem rugas. Tinha os olhos grandes, negros, cílios longos e curvados; nariz arrebitado. Trazia o cabelo que tinha me legado na altura do queixo. Uma boneca que andava.
Meu pai era o oposto. Alto, cerca de 1,80, forte, bem-proporcionado. Os cabelo castanho-claro ficavam com mechas douradas ao sol e destacavam seus olhos verdes, os mesmos olhos que eu tinha. Eu era toda minha mãe, só aqueles olhos eram como os meus. Eu era grata pelos seus genes, é claro. Mas sempre achei que me faltava algo, talvez muito. Eu não tinha aquela desenvoltura, aquela graça e fascinação que os dois tinham. Naquela época, pensava em mudar o visual, quem sabe não ajudaria? Cortar o cabelo era uma tentativa ingênua de me conferir charme, originalidade. Qualquer coisa que lembrasse atitude ou personalidade. Eu disse que estava sendo ingênua, mas naquela manhã, eu não sabia.
Quando terminou sua xícara de café, minha mãe andou até mim, mexeu nos meus cabelos, e depois soltou, dizendo, meio ordenando, meio implorando:
- Não corte, Cecília! – ri da tentativa dela de parecer severa. Na semana que vem eu faria uma surpresa quando aparecesse com o cabelo mais curto que o dela.
Mas não cortei, não houve semana que vem. Dali a dois dias, quando eu estava na escola, recebi a notícia da morte de Lúcio e Rosa Alves. Um acidente de carro na volta do trabalho.

Não houve semana seguinte, nem meses. Eu me arrastava e vegetava. Fazia meus deveres como um robô e os meus amigos foram cansando de me chamar, de me entreter. Um ou outro ainda me ligavam, alguns me chamavam para fazer trabalho em grupo. Fiquei assim durante quase um ano, sob custódia da irmã da minha mãe, que havia se mudado para minha casa. Ela era uma mulher tão diferente da Rosa, fria, distante. Porém, eu achava melhor assim. Rita não me incomodava e eu não incomodava a ela, ponto.
Tia Rita não incomodava, mas quando resolveu atrapalhar, foi mais um furacão na minha vida, e então tive raiva dela. Oito meses após o acidente, era fim de janeiro. Um novo ano letivo estava para começar, meu ano de vestibular, não que eu ligasse muito para isso no estado em que ainda me encontrava. No entanto, a última coisa que eu queria naquele momento era sair da cidade, ser obrigada a conhecer outras pessoas. Gente que não sabia que eu não fora sempre essa pessoa triste e mal-humorada. Gente para a qual teria de explicar o motivo de não comprar nada no Dia das Mães e Dia dos Pais. Gente nova e novos olhares de pena quando tivesse de contar a história.

Odiei a Rita quando ela veio me dizer, cheia de cautela, que ela sentia muito mesmo, mas que era uma proposta de trabalho irrecusável. Não respondi quando ela tentou me animar dizendo que eu ia amar Vitória, que lá tinha praias. Nada disso me importava. Eu queria São Paulo, meu apartamento no último andar. Eu queria a Avenida Paulista e todos os lugares que eu costumava freqüentar, não com meus amigos, mas com meus pais. Por que era isso que eu andava fazendo no meu tempo livre, indo aos lugares que eu ia com eles, escolhia um canto, e deixava as lembranças boas virem. Eu vivia de passado e pelo passado, o que eu faria agora?
Eu poderia ter falado tudo isso para a Rita, podia ter discutido, mas eu não fiz. Quis o Destino que essa mulher fosse meu único parente vivo. Sem mais tios, sem primos, sem avós. Ela também era minha madrinha. Ou seja, minha sorte era tanta, que além de perder minha família mais próxima de uma vez, eu devia fazer parte de 1% da população brasileira que tinha pouquíssimos familiares. Antes da morte dos meus pais, eu quisera um irmãozinho. Quando eles morreram, dei graças a Deus de não existir mais ninguém que precisasse sofrer como eu.
O motivo de não discutir com Rita era porque ela era uma criatura quase sem emoções. Ela não ria, não se perturbava, não tinha raiva. Eu nem lembro dela ter chorado no funeral! Para mim, toda sua vida estava no seu trabalho, todos seus objetivos na sua carreira. É claro que ela não ia se incomodar com os meus argumentos, que eles pareceriam tão fracos aos olhos dela. Então me dediquei a encaixotar todos os objetos dos meus pais, porque isso eu exigiria. Eu não ia a lugar algum se tudo aquilo não fosse levado. Rita fez o que eu queria, sem discutir.
Houve apenas outra exigência minha. Eu dançava desde que me conhecia por gente, e eu havia intensificado essa atividade ao extremo ultimamente, porque era a única coisa que me dava paz. Exigi que morasse num lugar onde poderia continuar a dançar. Minha tia fez melhor, me colocou numa escola que oferecia aulas de dança.

Prefácio

Eles estavam sentados no Salão Principal e suas oito cadeiras pretas formavam um semi-círculo. Estavam em óbvia reunião; havia uma decisão a ser tomada. À sua frente, um jovem homem de voz profunda e macia dizia:
- De acordo com o que apurei, já não podemos adiar. Temos de abandonar esse lugar. Devemos mudar e enfrentar de uma vez a situação... Ocorreram diversos extermínios, ou agimos agora, ou podemos ser os próximos.
Dizendo isso, calou-se. Uma mulher que aparentava ser a mais velha pôs-se de pé de um modo impossivelmente suave e rápido. Quando abriu a boca, sua voz pareceu espalhar algo vagamente quente e aconchegante no ar, como um fogo aceso em noite fria.
- Se acabou, proponho que votemos agora... – Quase imperceptíveis movimentos de cabeça indicavam a concordância dos demais.
- Quem é a favor da volta imediata, levante a mão. Sete mãos levantaram-se no ar, incluída a do rapaz que ainda estava de pé.
Após um segundo, todos se levantaram, menos uma garota e o rapaz em questão, que perguntou a ela:
- Descontente, Maria?
- E você está feliz, Gabriel? Os Antigos voltam... Mas eu não sou nada disso. Sou nova, e fraca.
Ele riu muito baixinho:
- Eles vão te proteger, pequena covarde... E eu também – e virando-se, saiu da sala num piscar de olhos.

Primeira postagem: sejam bem-vindos

Cecília é uma garota de sorte: bonita, feliz com sua família e amigos, sem grandes preocupações. Mas seu mundo vira de ponta-cabeça com a morte de seus pais. Abandonada, "vegetando", obrigada a morar com a tia, de quem não gosta, após um tempo ela pensa encontrar alguns bons amigos. Mas o que será que se esconde por trás deles e principalmente da inseparável Maria? E como descobertas de antigos segredos afetará sua vida e a idéia de si mesma?

Esse blog pretende divulgar um livro que estou escrevendo. Espero que gostem e que ajudem a divulgar, por favor. Comentários e críticas são mais que bem-vindos!


Pessoal, sei que o título não está muito empolgante, mas é provisório. Pensei na história toda, mas não consegui encontrar um título que fizesse a síntese. Aceito sugestões.=)