Outro Acidente
Nem nos meus sonhos eu poderia ter imaginado aquela nova faceta da Rita. É claro que eu sabia que ela era muito competente, ocupava um cargo importante na empresa em que trabalhava e como minha mãe, contava com uma herança boa no seu patrimônio. E ela também informara que ia ganhar bem mais no novo cargo. Mas eu não reparara como ela gostava do luxo. No meu estado de quase letargia nos últimos meses nem reparara na quantidade de pequenas, mas caras, jóias que ela possuía. Nem nas lojas caríssimas que ela comprava. Ela gostava de luxo, não tanto de ostentação.
Sua nova casa, minha nova casa, era parecida com ela. Ficava em um condomínio fechado em Vitória, era grande demais para as duas pessoas que morariam lá. Tinha vizinhas mais imponentes, tudo bem, mas eu não via a mínima necessidade das três suítes, da piscina e do grande jardim. Quer dizer, eu não ia nadar, e que eu saiba, muito menos a workaholic com quem morava. Além do mais, aquilo era tão diferente do nosso antigo, espaçoso, porém sóbrio apartamento que eu podia me sentir em Marte.
Mas a Rita estava mais que satisfeita, era óbvio. Aquilo me irritava muito, de modo que eu passava minhas últimas tardes de férias passeando ao redor do bairro,já que as aulas de dança só começariam depois. As praias eram muito perto, mas realmente não suportava o sol e a alegria dos turistas. Logo encontrei lugares preferidos: uma praça e um café. Na praça eu via as famílias com seus filhos nos fins de semana. Para o café, levava um livro para estudar enquanto me acabava em cafeína.
Quando chegou a manhã que eu retornaria às aulas, estava no meu humor apático de sempre. Lavei meus cabelos por uma questão de higiene e enquanto os escovava em frente ao espelho, reparei em mim pela primeira vez em meses. As mudanças eram óbvias: havia emagrecido, estava pálida, o olhar mortiço. Fiquei um pouco preocupada em passar mal e nem poder começar as aulas de dança. Decidi que dali em diante eu colocaria comida goela abaixo, ainda que não tivesse a mínima vontade ultimamente.
Minha turma não me surpreendeu. Pessoas de dezessete anos felizes, risonhas, amontoavam-se em grupinhos. As meninas patricinhas, os garotos esportistas, os descolados, os alternativos, os nerds, alguns excluídos. Pessoas que já se conheciam e estavam eufóricos porque se formariam esse ano. Que viagem eles escolheriam? Imaginava que não seria Porto Seguro, já que tinham praia ali ao lado. Ou talvez fosse, era diferente praia quando se podia beber até cair, não? Sem precisar encarar os pais na ressaca.
Escolhi um lugar ao fundo para sentar. Quando a manhã acabasse, procuraria a professora de dança dali, como a diretora havia me indicado.Parecia que esse ano eles ensaiariam um espetáculo. Quem sabe eu poderia me encaixar? Dançar era a única coisa que eu fazia bem.
A primeira aula era de Literatura, uma matéria que eu apreciava, mas o professor tardava a chegar. Não tendo o que fazer, fiquei observando as pessoas. Alguns ao meu lado pareceram começar a me notar, mas não os encarei. Definitivamente não queria falar com ninguém por enquanto. Primeiro, eu iria examinar o terreno. Ao lado esquerdo sentava um grupo numeroso de meninas bonitas: loiras, morenas, uma negra. A maioria com o cabelo liso de escova e chapinha. Eram as que mais riam na sala barulhenta, notei que usavam maquiagem também. Eu não podia me sentir mais diferente do que ali, no pior sentido da palavra. Havia apenas um casal na sala, eles estavam alheios a todos, de mãos dadas sobre a mesa, cochichavam baixinho. Eu me remexi, inquieta, aquilo era desconfortável.
O professor entrou de repente e a turma calou em poucos instantes. Eu me surpreendi, esse comportamento não era muito normal. O homem era velho, tinha barba e cabelo brancos, no entanto, passava a impressão de ser vigoroso. Ele sentou-se, dizendo bom dia, e sem perguntar como foram nossas férias ou desejar boas vindas, foi informando o conteúdo que estudaríamos naquele ano. Ninguém parecia surpreso ou aborrecido com isso, o que me fez pensar que provavelmente os alunos já estavam acostumados com ele.
- Quanto aos livros do vestibular, focaremos especialmente em Sagarana e Vidas Secas. É claro que não faz o menor sentido.... Sim, senhorita?
Eu estivera tomando notas, quando levantei a cabeça, vi que ele se dirigia a uma garota parada no meio da sala. Ela obviamente tentara entrar atrasada e de forma discreta, mas isso tinha sido um desastre. Com um meio-sorriso sem graça, ela pediu desculpas, e eu fiquei surpresa com a voz delicada e limpa que eu ouvi. Quase como se ela estivesse cantando ou recitando.
- Vá sentar então, Maria. – eu estranhei o nome meio em desuso.
Rapidamente, ela sentou-se na cadeira vazia ao meu lado. Pude notar, pelos cantos dos olhos, que ela não usava maquiagem alguma. Também, nem precisava. Ela era gritantemente bonita, os olhares dos garotos a seguiram quando ela passou. E, veja bem, eu não estou me referindo a uma beleza vulgar. Seu cabelo era longo, levemente ondulando até sua cintura. Como seus grandes olhos, era cor de caramelo. Mas Maria era extremamente branca, pálida, não de forma doentia, era um pálido meio luminoso, quase como a princesa élfica do filme O Senhor dos Anéis, mas sem as orelhas pontudas.
Provavelmente notando que eu a olhava muito, ela virou a cabeça para mim. Eu rapidamente voltei para as minhas anotações, sem a encarar nos olhos. Quando o sinal bateu, levantei e apanhei a mochila. Minha próxima aula era laboratório de Química, eu não poderia estar menos ansiosa.
Uma garota que estivera sentada atrás de mim deve ter reparado o meu desânimo, porque virou para mim, dizendo:
- A próxima aula é boa, a professora dá nota fácil e não liga muito se a gente conversa. Sorri involuntariamente para ela, meio surpreendida pelo tom usado, como se eu tivesse perguntado antes.
Foi por isso que respondi:
- Que bom, não ia suportar uma aula séria como essa em Química.
Ela riu.
- É verdade... Meu nome é Carolina.
- O meu é Cecília.
E ela foi minha primeira amiga naquele lugar. Carolina era realmente alguém legal. Não fazia o tipo popular, mas conversava bastante, ria fácil. Estava um pouco acima do peso, mas realmente não se importava. Tinha um rosto meigo, o cabelo escuro nos ombros era sedoso, e olhos azuis. Com ela como companhia, o dia não demorou tanto a passar. Ela também não me fez nenhuma pergunta muito pessoal, o que me poupou a parte desagradável da pena.
Quando a manhã acabou, fui me matricular e falar com a professora de dança, Juliana. Era jovem, e cheia de entusiasmo. Passou para mim os horários das aulas, e me explicou a idéia de dar aos alunos uma noção dos mais variados tipos de dança. Também disse que os estudantes matriculados poderiam treinar num espaço da escola, pois era permitido.
- Não que alguém faça isso. - ela disse rindo.
É claro, mas eu faria.
A primeira semana de aula não correu tão ruim como eu havia imaginado. Carolina me apresentou para o grupo de amigos que ela costumava andar, pessoas tranqüilas e inteligentes, dois meninos e duas meninas, além dela . De vez em quando, a tal Maria se reunia a eles, as únicas pessoas com quem parecia se dignar a falar. Os outros diziam que ela era meio reservada. Ela nunca falara comigo, mesmo quando estávamos nos mesmo grupo de pessoas.
No sábado, acabei aceitando o convite dos meus novos colegas para um passeio na praia. Não estava realmente a fim, mas preferi aquilo do que um dia inteiro sozinha, ou com a Rita, que dava no mesmo. Além do mais, eles eram pessoas legais, por isso também fiz um esforço extra para não me deixar cair no estado robótico-vegetativo.
Coloquei um biquíni por baixo de um vestido de verão, só para o caso de insistirem muito e eu ser obrigada a entrar no mar. Peguei óculos escuros, chapéu e bolsa de praia e fui de táxi. Minha mesada era bem grande, e eu quase não gastava. Além disso, não queria ter de tirar a Rita da frente do seu notebook só para satisfazer minhas necessidades sociais.
Eu os encontrei no lugar combinado. Ali estava Carolina, Letícia e Analu, Roberto e Luís. Tinham vindo todos. Andamos um pouco à beira mar, sentindo a água banhar nossos pés. Estava realmente muito calor, mas a brisa aliviava. Depois estendemos a esteira e sentamos. Os meninos logo acabaram entrando em um jogo de futebol, e nós, meninas, ficamos ali, conversando. Então vi Maria, distante uns trinta metros de nós. Ela usava uma saia curtinha e uma camiseta regata, estava falando com algumas pessoas que eu não conhecia. Então falei para as outras:
- Não é a Maria ali?
Estreitando os olhos, Carolina comentou:
- Ela mesma. Esquecemos de chamá-la... Mas parece que ela já está acompanhada.
No entanto, nesse momento ela foi embora, caminhando na direção contrária, e não nos viu.
Uma meia hora depois, eu estava me sentindo fritando por causa do sol, louca por um refrigerante. No entanto, econômica como era, pretendia ir até a pequena venda ali perto onde a bebida era mais barata. Eu não ia me sujeitar aos preços dos quiosques/barracas. Como boa alma, perguntei aos outros se queriam algo, colocaria tudo na minha sacola de praia. Todos se mostraram muito agradecidos, mas ninguém se ofereceu para me acompanhar. Não me importei, só queria algo gasoso e gelado para molhar a garganta.
Saindo da areia, estava na faixa de pedestres, atravessando a avenida quando vi Maria mais uma vez. Ela vinha na minha direção contrária, mas pareceu não me ver. Eu estava começando a achá-la muito mal educada. Do outro lado, me virei para trás a fim de olhá-la. Mas ela não estava na outra calçada. Estava parada no meio da rua, sem fazer movimento algum, perfeitamente rígida, os braços ao lado do corpo. Eu só podia ver suas costas, não imaginava o porque daquilo. Então o farol fechou para os pedestres, verde para os carros. Umas últimas pessoas correram. Maria não, continuou parada.
Não sei o que me deu. Quer dizer, sou alguém legal fora do meu estado robótico, mas não costumo bancar a super-heroína, ainda mais com gente que eu nem conheço direito. Não sou tão boa assim, e prezo pela minha conservação física, já que a mental não está sempre 100%. Acho que deve ter sido o fator carro. O cara bêbado do caminhão que fez o carro dos meus pais parecerem uma sanfona. Eu queria evitar uma morte, provavelmente aquela que não havia mais como não evitar.
Então simplesmente corri para tirar Maria do caminho quando vi um carro vindo em alta velocidade, o som tão alto, teria o motorista visto uma menininha na rua? Provavelmente não, porque ele vinha acelerando. Quando corri, me choquei contra Maria e consegui tirá-la do caminho. Mas nós duas caímos no meio fio do outro lado, e ela eu não tinha visto como estava, porque eu estava ocupada com a dor da minha cabeça batendo no chão.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
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