segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Capítulo Três - Maria

Havia gente gritando e falando ao meu redor enquanto eu apalpava minha cabeça, sentada no meio-fio. Não conseguia discernir nada, os barulhos pareciam um tanto distantes. Coisas geladas foram colocadas ao redor do meu rosto, enquanto uma voz clara e delicada como música dizia:
- Você está bem, Cecília? Pode me ouvir? Abra os olhos.
Só então percebi que estava com os olhos fechados. Com esforço, deixei o dia ensolarado inundar minha visão, e a primeira coisa que encontrei foram os grandes olhos caramelo da minha protegida, que pelo visto, estava bem melhor do que eu.
- Eu estou bem....
Outra voz, ainda mais bonita que a de Maria chegou aos meus ouvidos, mas era mais grossa e profunda. Um homem.
- Ela parece bem, Maria. Mas se você acha melhor levá-la hospital, podemos fazer isso. Só vamos tirá-la daqui, essa gente não está ajudando. – havia um tom de claro aborrecimento.
- Você pode andar, Cecília?
- Eu acho que sim... eu... – mas antes que eu terminasse, duas mãos me apanharam, uma de cada lado, colocando meu corpo de pé e sustentando. Eu tremia por inteiro, minhas pernas mais que tudo, mas eu queria sair dali. As mãos firmes, mas gentis me conduziram. De um lado, eu sabia que era Maria, seu perfume era inconfundível. Do outro lado, eu não sabia quem era. Eu estava sendo conduzida para um carro azul, não consegui reparar o tipo. Dentro, meu corpo dolorido recebeu feliz o assento de couro do banco traseiro. Alguém ligou o ar condicionado, enquanto a voz masculina dizia:
- Vou comprar uma água.
Eu estava com meus olhos fechados novamente, mas a voz já estava de volta, ralhando:
- Pelo amor de Deus, Maria, não deixa ela dormir. Bateu muito forte com a cabeça!
- Mas ela parece tão cansada!
Ouvi algo como um grunhido em resposta. Alguém colocou uma garrafa nos meus lábios, e eu bebi a água, sôfrega. Depois disso eu fui me sentindo melhor e pude realmente ver que eu estava num veículo espaçoso, com Maria ao meu lado, e do outro, alguém que eu nunca tinha visto antes. E esse alguém era lindo. Mesmo sentado eu podia ver como ele era alto. Seus cabelos lisos, os olhos negros e amendoados, as maçãs do rosto altas e a cor meio dourada da sua pele informavam que tinha sangue índio correndo em suas veias. E ele era forte, com músculos na medida certa, eu podia ver pelos seus braços saindo pelas mangas de sua camisa branca. Ele era jovem, não parecia ter mais de vinte anos.
Eu olhei, bem abobada, para o modelo exótico ao meu lado. Ele sorriu para mim, seus dentes eram brancos, fortes, brilhantes. Os lábios pareciam suaves, sensuais. Eu corei, não era do meu costume me sentir assim por causa de ninguém. Maria falou:
- Ah, Cecília, esse é o meu irmão, Gabriel.
Irmão. Era estranho, eles não se pareciam em nada, algum dos dois deveria ser adotado. Percebendo meu olhar de dúvida, ela falou:
- Não somos irmãos biológicos.
Eu não sabia o que falar, bebi mais um gole da minha água, enquanto Maria falava:
- Eu não sei o que você estava pensando, podia ter se machucado...
Então eu me irritei um pouco:
- Olha quem fala! Você estava no meio da rua parada, o carro ia te despedaçar...
O tal Gabriel disse:
- É verdade, Maria. Não seja ingrata, ela arriscou a vida para te salvar.
Então ela me olhou primeiro com olhos severos, que foram ficando doces. Então fez algo que realmente me surpreendeu. Maria me abraçou apertado, como se fossemos velhas amigas, e quando falou, sua voz era carinhosa:
- Tolinha. Sou muito grata a você, o que você fez por mim uma irmã não teria feito. Você é uma pessoa fantástica, Cecília.
Eles me levaram ao hospital, apesar dos meus protestos. Fiz alguns exames, mas o médico me liberou, após recomendar cuidado ao atravessar a rua. Eu sorri amargamente para ele, e fiquei olhando para Maria de um jeito acusador. No final das contas, parecia que ela não era aquela menina arrogante que eu achara que fosse. Essa de agora me encarava com uma expressão envergonhada, e eu estava longe de sentir o aborrecimento que fingia.
Gabriel dirigiu o carro até minha casa, fomos em quase completo silêncio. Quando chegamos, Cecília me deu seu telefone, caso eu necessitasse de algo. E, para a minha surpresa, deu um abraço de despedida.
- Bom final de semana, Cecília. Nos vemos na segunda! Se precisar de alguma coisa, me liga...
- Claro, claro... Até mais. – o irmão dela só me deu um leve aceno de cabeça. Entrei em casa e fui diretamente para o meu quarto. Tirei o celular da minha bolsa de palha e arfei, chocada: 10 ligações perdidas da Carolina. Eu havia em esquecido de que eles ainda deviam estar esperando minha volta, com os refrigerantes. Liguei imediatamente para minha amiga, impressionada com o tamanho do meu esquecimento. Depois que expliquei a situação, informando que estava bem, pedindo para que não se preocupasse, fui tomar um banho quente para me limpar e relaxar. Então deitei na cama e imediatamente peguei no sono.
Na segunda-feira já não me impressionou que Maria ficasse mais próxima de mim, e também ao grupo dos meus amigos. Eles aceitaram essa situação de forma muito legal, mesmo porque eles já falavam com ela antes, ainda que não fosse tanto. Eu confirmei minhas suspeitas de que ela não era esnobe. Nela eu encontrei um bom senso de humor, gentileza e confiança. Mas continuava não sabendo porque ela se comportara daquela forma. Também decidi que não importava, talvez tivesse sido timidez, talvez receio das outras pessoas. O fato é que deixando isso para lá, eu a aceitei inteiramente, e dois meses depois ela já era minha melhor amiga. Não foi só um título, era muito real como ela sempre estava ali ao meu lado quando sentia que eu afundava, como era a pessoa com quem eu mais me divertia, que sempre procurava coisas que me animassem.
Dois meses depois da mudança, estávamos na escola, reunidos na mesa da lanchonete e eu andava mais feliz e muito aliviada. É claro que havia uma chaga no meu peito pela morte dos meus pais, mas eu estava começando a entender que aquilo nunca mudaria. A dor da perda agora era parte de mim, eu sempre sentiria saudades. Se eu tinha lembranças boas, aquilo deveria me ajudar a seguir em frente, não deveria seguir fazendo delas um mundo em que eu me afogava. O acidente me acordara para aquilo. Porque se meus pais morreram, era verdade que eles me desejavam o melhor. E de onde estivessem, eu acreditava que estavam olhando por mim.
Eu comecei a me alimentar melhor, de uma forma saudável. Eu estava mordendo minha maçã quando Maria chegou para se sentar à nossa mesa e informou:
- Pessoas, meus pais vão dar uma festa lá em casa, e eu estou convidando todos vocês... - Analú, de cabelos loiros curtos Chanel, deu um daqueles seus sorrisos angelicais:
- Hum... Faz tempo que eu não vou a uma festa!
- Quando vai ser?
- No sábado, daqui 2 semanas. Vai ter muita gente mais velha porque é uma oportunidade para os negócios, também. Mas tem os filhos dessas pessoas, e meus irmãos e eu vamos convidar alguns amigos.
Roberto tinha uma expressão maliciosa em seu rosto cor de ébano:
- Mulheres bonitas?
Maria retorceu os lábios, dizendo;
- Claro, mas nenhuma mais bonita do que nós.
Gargalhadas e barulhos irônicos partiram dos garotos.
- Em falar em beleza – murmurou a nissei Letícia – olha quem está vindo aí.
Passando em frente à mesa, o muito alto, forte e loiro Flávio. Todos sabiam que ele jogava futebol no sub-17, e estava na mira de alguns clubes na categoria profissional. Era difícil jogadores de futebol com esse tipo de beleza, e inteligente como se dizia que era. Se não fosse um esportista, suas notas o colocariam no time dos nerds. Eu baixei meus olhos, tendo a impressão que ele me olhara por um breve momento.
- Então com certeza a Letícia vai à minha festa... Porque o Flávio ali vai.
As meninas meio que ficaram hiper animadas depois disso, rindo nos momentos mais estranhos desse mundo. Eu não. Um cara gato como Flávio pode te deixar ansiosa só por estar no mesmo ambiente que ele, e você o olha e fantasia: se ele me notasse... Mas uma beleza tão exótica, mácula e misteriosa como a do irmão de Maria faz você passar mal de estar perto, e o cheiro... nossa, como ele cheirava absurdamente bem... Mas eu não podia nem me deixar ficar boba e mole como eu queria, porque o Gabriel era mais velho, irmão da minha melhor amiga e muito inalcançável. Um deus guerreiro antigo indígena diante de uma mulher comum.
Nossa próxima aula era Educação Física, Letícia tinha um sorriso enorme, não somente porque adorava se exercitar, mas também porque achava o jovem professor um pedaço de mau caminho. Sim, ele era, mas eu não gostava do que ele estava propondo esse semestre como atividade. Quer dizer, eu amo dançar, mas correr não é meu forte, ainda mais nesse calor. Exceto Carolina, nenhum dos meus amigos compartilhava o meu sentimento de desânimo. O pior mesmo era Maria, que costumava correr ao meu lado de uma maneira que não demonstrava cansaço, ela nem suava, enquanto eu terminava o circuito suando em bicas, vermelha e descabelada. Ou seja, ela estava linda e impecável, como sempre.
O sol ardia em minha cabeça, eu havia esquecido meu boné, minha pele dizia que ia rachar, mas minha nota do bimestre dependia de treino, e naquele ritmo, eu não conseguiria terminar. Pessoas do mesmo ano, mas de outra sala, também utilizavam a pista. Minha amiga nissei quase teve uma explosão ridícula de risos porque Flávio estava ali. Ele fazia seu percurso sem esforço, sem perder nada de seu charme porque estava suando. Prendi meu cabelo em um alto rabo de cabelo e comecei a correr, as meninas ao meu lado. Os meninos já estavam à frente, o número de voltas que eles tinham de dar eram maiores, no mesmo espaço de tempo que nós. Fazia dois minutos que eu tinha iniciado quando Flávio passou por mim, que a essa altura estava para trás com a Maria. Quando ele passou, virou a cabeça, e eu tive a nítida impressão de que foi para mim que ele olhou, não para minha companheira. Será? Não, improvável.... Mas foi só depois que ele diminuiu o ritmo e esperando que nós o alcançássemos, colocou-se ao lado da Maria:
- E aí, aquela festa vai rolar mesmo? – até correndo dava para perceber que ele tinha um jeito calmo de falar, meio pausado, educado.... Ele era realmente legal, diferente dos outros que falavam gritando, cheios de trejeitos para chamar atenção. Maria, também com facilidade para falar, disse:
- Claro, convidei você e outros amigos meus daqui.... Ela vai também – disse, apontando para mim – Vocês se conhecem? – ele fez que não
- Então, essa é a Cecília, esse é o Flávio.
Ele sorriu, dessa vez muito para mim:
- Gostei do seu nome, até mais Cecília, Maria...
E aumentando a velocidade, ele se foi. Eu estava com tanta vergonha, fixei o olhar à frente e foi meu erro. Ao longe, ele continuava irresistível, e eu podia ver os músculos da suas pernas bronzeadas.... Foi meu erro. Atrapalhada e cansada, não notei que meus cardasos se desamarravam, e eu pisei neles, caindo com a cara no chão, como uma fruta podre. Só tive tempo para colocar minhas mãos na frente para não bater meu rosto. Imediatamente senti dor nas minhas mãos e nos meus joelhos, eu percebi que meus joelhos sangravam um pouco.
-Ai meu Deus! – a voz límpida da Maria tinha subido vários tons com o desespero. Ela nem olhava para o meu machucado direito, a essa altura eu já estava sentada. Pensei vagamente que ela podia ter me oferecido sua mão para me ajudar a levantar. Mas outra mão me era oferecida, bem maior, quente e macia: Flávio tinha voltado e me ajudava agora:
- Você está bem? Acho melhor irmos até a enfermaria...
- Não precisa, não foi nada....
Maria me cortou, histerismo brilhando nos olhos caramelos:
-Pelo amor de Deus, Cecília, você está sangrando!
Ela realmente estava gritando agora, eu arregalei os olhos, surpresa. Imagina o escândalo que ela estaria fazendo se fosse ela que tivesse se machucado. Sem esperar respostas minhas, mas também um pouco chocado com os gritos, Flavio me acompanhou para avisar o professor e então até a enfermaria. O desgraçado do Prof. Márcio olhara para mim do alto dos seus músculos e óculos escuros e dando um sorriso de comercial de pasta de dente, e dissera:
- Vai logo, Cecília.... Quando vi a aglomeração na pista, devia ter adivinhado que era você...
Com raiva fervendo dentro de mim, fui para a enfermaria, meu fiel escudeiro ao meu lado. Nenhum cuidado foi necessário além de gelo e curativo. Enquanto eu pressionava um saquinho contra meu joelho, eu insistia com o Flávio para ele ir embora, se não perderia sua próxima aula:
- Relaxa, minha próxima é Química. Eu detesto, prefiro tomar banho nela... Ah, já sei, você quer me mandar embora porque eu estou suado, fedendo.... – Eu ri com aquele absurdo, as meninas da escola se matariam para estar no meu lugar, mesmo que ele estivesse coberto de lama, não fosse a beleza, ele tinha tanto status.
Quando nos despedimos, ele me disse até mais e me deu um beijinho no rosto. Isso era algo tão comum, qualquer pessoas que conhecíamos, nós cumprimentávamos assim, não era necessário nenhuma intimidade. Havia verdadeiros rituais de beijos no rosto à hora da entrada, como no Império se fazia rituais de beija-mão. Mesmo assim, aquele era especial, porque o cara era fantástico e perto dele eu reparara que tinha olhos de uma cor que eu não podia definir se eram verdes ou de um pálido azul, mas eram doces, disso eu tinha certeza. O beijo no rosto tinha sido quente, eu estava balançada, e isso não seria nada bom, a criação de ilusões na minha cabeça atrapalhada.
Quando cheguei um pouco atrasada na minha aula de Redação, estava aborrecida com a Maria. Não que eu reclamasse da atenção do meu amigo, porém ela podia ter sido mais legal. Além disso, eu não tomara banho, estava com o shorts da Educação Física, curativos no meu joelho. Quando eu sentei em uma das mesas redondas, ela colocou uma mão em meu braço, sussurrando:
- Me desculpe por não ter ido com você.... Eu tenho problemas quando vejo sangue, fico histérica...
Tudo bem, ela tinha problemas. O que eu poderia falar sobre isso, eu tinha esquisitices piores, depressão, silêncio, mau-humor... E ela nunca me abandonara e condenara. Eu sorri, ela estava totalmente perdoada:
- Tudo bem, eu não estava sozinha.
Ela soltou um riso gostoso, o rosto cúmplice:
- Estava na melhor companhia... Ele estava louco para ficar um tempinho com você.
-Até parece...
- Estou falando sério, Ciça! Todos sinais estão lá, você só não vê se não quiser! – e começou a enumerar nos dedos:
-Ele te olhou na lanchonete hoje, e não foi a primeira vez.... Ele te notou já semanas atrás. Depois veio com aquela história da festa só para eu te apresentar.... E como se ofereceu para te ajudar.... Ai, meu Deus, as meninas estão morrendo de inveja! – Eu ri, meio nervosa.... Será? Será? Será?
Naquele momento, o professor chamou a atenção da classe para que parássemos de falar tanto e voltássemos a escrever os textos.

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