sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Capítulo 1 - Mudanças

Meus pais e eu tomávamos café da manhã na sala do nosso apartamento naquele sábado. Era um hábito estarmos reunidos às refeições, mesmo aos fins de semana. Lembro que fazia frio, as janelas estavam fechadas para impedir o vento de entrar. Em algum momento, eu dissera:
- Vou cortar o cabelo na semana que vem.
Os lábios da minha mãe caíram numa carinha de tristeza. Meu pai estendeu o braço, apanhando uma mecha dos meus longos cabelos pretos e anelados:
- Não corte.
- Por quê? Os dela são curtos, e são como os meus – eu afirmei, apontando minha mãe. Ela então riu daquele jeito alto que costumava rir, replicando:
- Mas eu sou uma velha... Não fica bem cabelos longuíssimos na minha idade.
Eu fiz um som de sarcasmo. Tá legal. Deixa eu dizer o quão jovens meus pais pareciam e como eles eram bonitos. Minha mãe não era alta, tinha 1,65m, mas seu corpo era magro e cheio de curvas, ninguém diria que tinha uma filha, muito menos que passara dos trinta. Conservava a pele fresca, delicada, sem rugas. Tinha os olhos grandes, negros, cílios longos e curvados; nariz arrebitado. Trazia o cabelo que tinha me legado na altura do queixo. Uma boneca que andava.
Meu pai era o oposto. Alto, cerca de 1,80, forte, bem-proporcionado. Os cabelo castanho-claro ficavam com mechas douradas ao sol e destacavam seus olhos verdes, os mesmos olhos que eu tinha. Eu era toda minha mãe, só aqueles olhos eram como os meus. Eu era grata pelos seus genes, é claro. Mas sempre achei que me faltava algo, talvez muito. Eu não tinha aquela desenvoltura, aquela graça e fascinação que os dois tinham. Naquela época, pensava em mudar o visual, quem sabe não ajudaria? Cortar o cabelo era uma tentativa ingênua de me conferir charme, originalidade. Qualquer coisa que lembrasse atitude ou personalidade. Eu disse que estava sendo ingênua, mas naquela manhã, eu não sabia.
Quando terminou sua xícara de café, minha mãe andou até mim, mexeu nos meus cabelos, e depois soltou, dizendo, meio ordenando, meio implorando:
- Não corte, Cecília! – ri da tentativa dela de parecer severa. Na semana que vem eu faria uma surpresa quando aparecesse com o cabelo mais curto que o dela.
Mas não cortei, não houve semana que vem. Dali a dois dias, quando eu estava na escola, recebi a notícia da morte de Lúcio e Rosa Alves. Um acidente de carro na volta do trabalho.

Não houve semana seguinte, nem meses. Eu me arrastava e vegetava. Fazia meus deveres como um robô e os meus amigos foram cansando de me chamar, de me entreter. Um ou outro ainda me ligavam, alguns me chamavam para fazer trabalho em grupo. Fiquei assim durante quase um ano, sob custódia da irmã da minha mãe, que havia se mudado para minha casa. Ela era uma mulher tão diferente da Rosa, fria, distante. Porém, eu achava melhor assim. Rita não me incomodava e eu não incomodava a ela, ponto.
Tia Rita não incomodava, mas quando resolveu atrapalhar, foi mais um furacão na minha vida, e então tive raiva dela. Oito meses após o acidente, era fim de janeiro. Um novo ano letivo estava para começar, meu ano de vestibular, não que eu ligasse muito para isso no estado em que ainda me encontrava. No entanto, a última coisa que eu queria naquele momento era sair da cidade, ser obrigada a conhecer outras pessoas. Gente que não sabia que eu não fora sempre essa pessoa triste e mal-humorada. Gente para a qual teria de explicar o motivo de não comprar nada no Dia das Mães e Dia dos Pais. Gente nova e novos olhares de pena quando tivesse de contar a história.

Odiei a Rita quando ela veio me dizer, cheia de cautela, que ela sentia muito mesmo, mas que era uma proposta de trabalho irrecusável. Não respondi quando ela tentou me animar dizendo que eu ia amar Vitória, que lá tinha praias. Nada disso me importava. Eu queria São Paulo, meu apartamento no último andar. Eu queria a Avenida Paulista e todos os lugares que eu costumava freqüentar, não com meus amigos, mas com meus pais. Por que era isso que eu andava fazendo no meu tempo livre, indo aos lugares que eu ia com eles, escolhia um canto, e deixava as lembranças boas virem. Eu vivia de passado e pelo passado, o que eu faria agora?
Eu poderia ter falado tudo isso para a Rita, podia ter discutido, mas eu não fiz. Quis o Destino que essa mulher fosse meu único parente vivo. Sem mais tios, sem primos, sem avós. Ela também era minha madrinha. Ou seja, minha sorte era tanta, que além de perder minha família mais próxima de uma vez, eu devia fazer parte de 1% da população brasileira que tinha pouquíssimos familiares. Antes da morte dos meus pais, eu quisera um irmãozinho. Quando eles morreram, dei graças a Deus de não existir mais ninguém que precisasse sofrer como eu.
O motivo de não discutir com Rita era porque ela era uma criatura quase sem emoções. Ela não ria, não se perturbava, não tinha raiva. Eu nem lembro dela ter chorado no funeral! Para mim, toda sua vida estava no seu trabalho, todos seus objetivos na sua carreira. É claro que ela não ia se incomodar com os meus argumentos, que eles pareceriam tão fracos aos olhos dela. Então me dediquei a encaixotar todos os objetos dos meus pais, porque isso eu exigiria. Eu não ia a lugar algum se tudo aquilo não fosse levado. Rita fez o que eu queria, sem discutir.
Houve apenas outra exigência minha. Eu dançava desde que me conhecia por gente, e eu havia intensificado essa atividade ao extremo ultimamente, porque era a única coisa que me dava paz. Exigi que morasse num lugar onde poderia continuar a dançar. Minha tia fez melhor, me colocou numa escola que oferecia aulas de dança.

2 comentários:

  1. Heei Marii
    puuxa, sempre fico muito feliz quando vejo novos leeitores. ainda mais que ja ta no final e as pessoas geralmente ficam com preguiça de leer tudo, ASUDIHADUi e cara, vc é rapida em? leu mais de 200 páginas, ps: no word ja estou na pag 240 :O UISDHK
    mas ei, coomeçei a ler sua historia eem ?
    e ja estou curiosa por aquele prefácio *-*
    continue continue,
    e se puder e ainda nao tiver, segue meu blog lá ;)

    beeijos e boa sorte :*

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  2. e eei, postei o ultimo caap lá *-*
    deepois paassa la e comenta o que achou,

    beeijos :*

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